Os Destaques de Fevereiro 2023

Os novos lançamentos de Kelela, de Caroline Polachek e dos Glockenwise são os destaques em análise pelo nosso crítico musical e editor-chefe, Rui Cunha.

Kelela – Raven

Género: Alternative R&B; Electronic
Data de Lançamento: 10/02/2023
Editora: Warp

Pode não parecer, mas Kelela Mizanekristos tem estado maioritariamente ausente nestes últimos cinco anos e meio, observando discretamente o mundo em seu redor, distante das suas investidas artísticas, e repensando o seu envolvimento e compromisso. No entanto, e em seu favor, diga-se que, mesmo no meio deste seu interregno, a importância de Kelela no panorama atual não foi minimamente desvalorizada, não só enquanto pioneira de um R&B mais camaleónico e contorcido, mas igualmente como mulher negra e queer dentro da indústria musical. Com a natural passagem do tempo, Take Me Apart ainda se apresenta como uma das verdadeiras proezas da segunda metade da última década, com a sua visão sempre estimulante, neo-futurista das sonoridades do R&B, da música eletrónica e de tudo um pouco. E se a mixtape CUT 4 ME e o igualmente aliciante EP Hallucinogen serviram de base para um fenomenal disco de estreia, então o seu tão ansiado sucessor vai buscar a sua essência a outros recursos.

Após um longo período de autorreflexão, Kelela faz de Raven uma celebração do seu renascimento (como tão bem descreve na faixa-título deste seu segundo disco), encontrando-se por entre hinos eletrizantes e algumas nuances ambientais. Logo desde Washed Away (mais tarde reposta nos instantes finais de Raven), à medida que a sua voz angélica se evapora rumo a um vácuo sem fim, torna-se percetível que o grandioso regresso de Kelela aos trabalhos de estúdio não é tão imediato como Take Me Apart. Mesmo a sua justa quota de faixas já destinadas às pistas de dança apresentam-se mais serenas, mas não menos hipnóticas. Happy Ending e Contact, por exemplo, encontram o êxtase nos breakbeats de LSDXOXO e Bambii. On the Run e Enough for Love, por outro lado, vêm Kelela a navegar por entre paixões e grooves repletos de erotismo. Todas elas odes “às festas sem fim, debaixo de jogos de luzes e de uma bola de espelhos”. Até mesmo Closure, com todas as suas influências de hip-hop, e a minimalista Let It Go são candidatas igualmente irresistíveis para darem som a noites festivas.

O maior trunfo de Raven, porém, centra-se na sua atmosfera absolutamente envolvente (quase como se estivéssemos submersos, como alude a capa do disco), utilizada tanto como contraste e como ponte para os seus segmentos mais enérgicos. Estas duas facetas do disco alimentam-se mutuamente, sempre em sinergia, um pouco à semelhança de Aquaphoria, o DJ mix de 2019 – lançado no âmbito do 30º aniversário da Warp Records – que levou Kelela a harmonizar por cima de instrumentais de artistas como Oneohtrix Point Never e Aphex Twin. Se a sequência de Sorbet e Divorce nos absorve numa espiral de sintetizadores ténues e melodias etéreas, então a já mencionada faixa-título conduz-nos, em lume brando, para mais uma explosão de energia em Bruises. Kelela sabe precisamente quando tirar proveito destas descargas de tensão e quando se deve resguardar. Raven bem pode servir como música para suavizar a alma ou para incendiar discotecas, mas a linguagem mais falada neste seu segundo disco é mesmo a da conformidade. Ao fim de uma viagem de pouco mais de uma hora, Kelela renova-se à custa dos seus próprios feitiços e, pelo meio, nós também.

Caroline Polachek – Desire, I Want To Turn Into You

Género: Art Pop
Data de Lançamento: 14/02/2023
Editora: Perpetual Novice

De fascinar ao lado de Patrick Wimberley, nos agora extintos Chairlift, até se transformar numa das artistas a solo menos convencionais da música pop contemporânea, Caroline Polachek é, inegavelmente, a protagonista do seu mundo. Sempre a transbordar de misticismo e fascinada com o sobrenatural, as suas criações são tão desmedidas quanto a sua criatividade. Ainda que seja um disco de estreia, Pang fez logo desse traço uma evidência, algo que também se torna evidente nos seus concertos. Por detrás de todos as teatralidades vocais e dos arranjos celestiais, esconde-se Polachek e a sua tempestade de emoções, que dão luz a manifestos saudosos (Ocean of Tears e So Hot You’re Hurting My Feelings, o seu maior êxito até à data, vêm logo à memória) e baladas reluzentes, na veia de Look At Me Now e Door. Para além de ser uma espécie de romântica incurável, não é de agora que o amor é um dos principais fios condutores da sua música, mas nunca de forma tão patente como em Desire, I Want To Turn Into You.

Se Pang puxava constantemente pelo divino, o seu muito-aguardado sucessor quebra o gelo através da volatilidade e da rebelião. Desire, I Want To Turn Into You tanto consegue ser sensorial como multifacetado e maximalista, com Polachek e o co-produtor Danny L. Harle a incorporarem diversos estilos musicais e influências como se estivessem a colher flores do jardim do Éden. Ora mergulham no trip-hop subtil de Pretty In Possible (um dos muitos instantes em que o disco vai pescar alguma inspiração às excursões de Imogen Heap e Guy Sigsworth nos Frou Frou), ora evocam os ritmos do flamenco em Sunset, levando-nos para as ruas apinhadas de Barcelona captadas no videoclipe (ou talvez para Gerudo Valley). Convém não esquecer a deslumbrante Blood and Butter, que funde microbeats, guitarras e um solo de gaita-de-foles em mais um choque entre as dimensões acústicas e eletrónicas.

De facto, todos os singles do álbum provam ser bem representativos tanto da sua qualidade como da sua heterogeneidade. Welcome To My Island é, adequadamente, um fulgurante cartão de boas-vindas ao universo apaixonado de Polachek, com cada refrão a assemelhar-se a uma erupção vulcânica. Mesmo algo como Bunny Is A Rider, um dos temas mais diretos e acessíveis da artista, ou tão ténue como Crude Drawing Of An Angel acabam por quebrar esta constante sucessão de experimentalismos.

Contudo, entre todas as suas reviravoltas, Desire, I Want To Turn Into You mantém-se sempre bem alicerçado, em prol da impecável curadoria estética que Polachek e Harle já nos têm vindo a acostumar. A dupla bem pode fazer retoques subtis ao estilo de Celine Dion ou Madonna, na época de Ray of Light, prestar uma tocante homenagem a SOPHIE em I Believe (com sintetizadores pujantes e um beat de 2-step a acompanharem um dos mais extraordinários exercícios de ginástica vocal da carreira de Polachek) ou alinhar as estrelas para um triunfo improvável em Fly To You, ao lado de Grimes e Dido. Em cada momento passado nesta ilha de prazeres e mitos, é Polachek quem está no comando, guiando-nos de posto em posto em direção à extremidade oposta da capa do álbum. Com Billionsum dos melhores singles de 2022 para a CONTRABANDA – a oferecer-nos uma última prova da exuberância do prazer, com marinheiros que amam como pintores e sonetos sob a forma de sexting, Polachek leva-nos “para junto dos portões do paraíso”, à medida que um coro angélico vai anunciando a nossa partida. Se o desejo permanecer bem para além do seu fim, então deixemo-nos consumir por Desire, I Want To Turn Into You, é o melhor remédio.

Glockenwise – Gótico Português

Género: Alternative Rock
Data de Lançamento: 17/02/2023
Editora: Vida Vã

Os Glockenwise já viveram muitas vidas desde que começaram a dar que falar em 2011 com Building Waves – uma época dourada no que toca a estreias no panorama musical português, diga-se. A banda composta por Nuno Rodrigues, Claúdio Tavares, Rafael Ferreira e Rui Fiusa já trocou o inglês pelo português, envergando pelas sonoridades do punk e do indie rock, numa constante busca pela sua própria identidade. Plástico, editado em 2018, marcou mesmo uma rutura quase total entre os três primeiros discos e esta nova fase do grupo, uma reinvenção que não só lhes valeu o seu disco mais acarinhado até à data, mas também um marco indiscutível de toda uma geração de bandas e artistas com selo nacional.

Gótico Português, o quinto e mais recente álbum dos Glockenwise (lançado de forma independente), vem reforçar, em certa medida, alguns dos traços do seu antecessor. A dose de angústia e cinismo das suas letras sobressaem cada vez mais, por entre uma palete de pop rock continuamente reconfortante. É algo que se verifica nos momentos mais orgulhosamente acessíveis do disco, como é o caso de Besta (com os seus preciosos toques de jangle pop, a fazer lembrar The Smiths ou R.E.M.) e de Natureza.

No entanto, Gótico Português vê os Glockenwise a darem mais tempo ao tempo, a deambularem agradavelmente por entre as incertezas da vida, fugindo propositadamente ao caráter conciso de Plástico. É uma mudança mais do que bem-vinda, sendo que são precisamente algumas das excursões mais arrojadas do disco que causam maior impacto. A par de Margem e da faixa-título, Vida Vã – quase a resvalar para além dos 8 minutos de duração – acaba por ser o exemplo mais notório deste shift criativo, encerrando o disco numa escalada de intensidade e de distorção exacerbante. É, sem dúvida, o tema mais assumidamente shoegaze de Gótico Português.

De mãos dadas com esta faceta mais ousada dos Glockenwise, surge a forte presença da portugalidade em todos os cantos do álbum, desde a sua capa (fotografada em Santa Maria de Lamas) aos excertos de entrevistas à célebre ceramista Rosa Ramalho, sem esquecer a poesia de Camilo Pessanha em Água Morrente. É engraçado pensar que, no início da sua carreira, tentavam ir ao encontro de outros horizontes e de um remédio para o tédio. Agora, é precisamente num retorno especial às suas raízes barcelenses onde alcançam mais um feito notável na sua carreira. Olhando de frente um Portugal muitas vezes esquecido e incorporando-o com uma enorme criatividade e apreço, os Glockenwise trazem-nos o seu álbum mais maduro até hoje, um digno sucessor de Plástico que encontra a sua força ao olhar para dentro.

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