Os Destaques de Março 2023

Os novos lançamentos de 100 gecs, de JPEGMAFIA & Danny Brown e de boygenius são os destaques em análise pelo nosso crítico musical e editor-chefe, Rui Cunha.

100 gecs – 10,000 gecs

Género: Hyperpop; Pop Punk
Data de Lançamento: 17/03/2023
Editora: Dog Show; Atlantic

Para alguns uma peculiaridade musical repulsiva, para outros os guardiões protetores do hyperpop, é inegável que, em menos de quatro anos, Dylan Brady e Laura Les viram as suas vidas viradas do avesso. A onda de atenção que se seguiu ao lançamento de 1000 gecs, o álbum de estreia da dupla, não só veio acentuar ambos os pólos da discussão como ainda os conduziu aos principais palcos mediáticos (bem para além dos recantos da internet). Junte-se a isto a assinatura de um contrato com a Atlantic Records e o controlo do tornado musical dos 100 gecs bem poderia escorregar-lhes por entre os dedos. Acreditar que tal fenómeno fosse sequer possível, contudo, implica ignorar que a identidade dos 100 gecs começa e acaba em Brady e Les. Sem rótulos definitivos, sempre em redefinição, fundindo um número interminável de subculturas, influências e de tudo um pouco numa espécie de misturadora sónica. O resultado é inteiramente inerente à dupla e a todas as suas peculiaridades, disso ninguém duvida. É, por isso, mais do que natural que um segundo longa-duração não inflacione apenas o número de gecs.

Tudo o que envolve 10,000 gecs é desmedido, absurdo, cómico, descarta qualquer linha ténue entre a loucura e a sinceridade – sem qualquer ponto de retorno. Em nenhum outro disco se depara com um tema tão fundamentalmente humorístico como Doritos and Fritos, um interlúdio tão desconcertante como One Million Dollars (maioritariamente composto pela robótica voz text-to-speech do TikTok), e Hollywood Baby, uma ode pop-punk a sobreviver aos jogos infernais de Hollywood e da indústria musical. Noutra ótica, mememe e 757 emergem como os acenos mais sinceros aos tons proeminentes de hyperpop do predecessor, repletos de autotune, distorção e toda uma panóplia de extremidades digitais a erguerem-se em cada canto. Ainda no tópico de amores antigos dos 100 gecs, I Got My Tooth Removed volta a trazer-nos um novo brinde ao ska – ao estilo da afamada Stupid Horse – e, neste caso, aos tratamentos dentários de Les. Tem tanto de shitpost musical como de estupidamente divertido.

Não haja dúvida que a confusão histriónica de 10,000 gecs repesca muitas das fundações já conhecidas do grupo, mas, no seu cerne, está toda uma nova série de ingredientes, violentamente atirados contra a parede num animado (e definitivamente bem-sucedido) concurso para ver o que cola. Slap bass, riddim ou efeitos sonoros da THX? Para os 100 gecs, o truque passa exatamente por experimentar. A faixa inaugural, Dumbest Girl Alive, faz de bandeira destas ligeiras mudanças de trajetória, causando uma aliciante colisão entre as suas sonoridades e o metal, ao passo que mergulha igualmente no processo de transição de género de Laura Les. Billy Knows Jamie também cabe na mesma caixa, ainda que o seu clímax rebuscado mais se assemelhe a uns Limp Bizkit em esteróides.

Ainda que não seja substancial, esta reinvenção dos 100 gecs reforça a aposta naquele que é o principal encanto da sua arte: é consciente de si mesma, sem nunca sacrificar o fator-diversão. 10,000 gecs poderia essencialmente nascer e morrer com o simples propósito de reformular o que já se considera como adquirido. Também ajuda, claro está, que adjunto a todas estas empolgantes e novas excursões, nada precise de ser remotamente sério: as canções em si, os estilos musicais que a dupla tão fielmente reutiliza, os seus concertos (como o da última edição do Primavera Sound Porto, em junho passado), até mesmo o seu impacto. Por isso mesmo, os 100 gecs deixam-nos com uma proposta irrecusável: vamos celebrar o mundo moderno, com toda a sua irreverência e inquietação à mistura. O que se segue pode esperar.

JPEGMAFIA & Danny Brown – SCARING THE HOES

Género: Experimental Hip-Hop
Data de Lançamento: 24/03/2023
Editora: AWAL; PEGGY

Para JPEGMAFIA e Danny Brown, dois dos filhos prediletos do hip-hop underground, ser desconcertante é praticamente a razão da sua existência. A provocação através da inconvencionalidade, de nunca se cingir a quaisquer regras, de provocar reações viscerais como poucos dos seus contemporâneos sequer se atrevem a tentar. Dar a atenção devida a Veteran ou XXX, a LP! ou Atrocity Exhibition, presta-se, entre muitas outras qualidades, a isso. Sermos forçados a reequilibrar ao passo da música idiossincrática e excêntrica da dupla é, aliás, a primeira impressão que costumam deixar em qualquer um dos seus respetivos trabalhos. Para estes dois baluartes do hip-hop experimental se juntarem num só álbum já é motivo que baste para deixar muitas bocas a salivar. Desde o título do álbum e das suas faixas até à apreciação mútua pelos cantos mais requintados da cultura da internet (algo que se tornou francamente sinónimo das suas respetivas estéticas), qualquer produto que resulte de um cruzamento como este parece já destinado a ser o equivalente a um KIDS SEE GHOSTS para uma fação cronicamente online.

Não é, diga-se, música para eventos familiares ou festas mais casuais – e de bom grado. Rotular SCARING THE HOES como algo ‘fora-da-caixa’ é, contudo, só ver a imagem pela metade. Assemelha-se mais a um parque de diversões recheado de beats explosivos e exibicionismos, com uma dose de insanidade à mistura. No leme, lá estão duas prováveis lendas futuras do rap contemporâneo a cruzarem finalmente os seus caminhos, atirando orgulhosamente gasolina para a fogueira durante 35 minutos consecutivos.

Verdade seja dita, SCARING THE HOES aproxima-se sempre mais do estilo-base de JPEGMAFIA, que guia a produção do disco na sua totalidade, com recurso a um só sampler: o afamado Roland SP-404. É através destas limitações intencionais que o rapper de Baltimore emerge novamente como um sério talento em todas as frentes. Fale-se dos breakbeats elétricos de Lean Beef Patty e Fentanyl Tester (entrelaçados com recortes vocais de Milkshake, o icónico êxito de Kelis), do jazz errático de Jack Harlow Combo Meal ou do gospel distorcido de God Loves You, os seus instrumentais soam mais hiperativos e contundentes do que nunca.

E mesmo que Danny Brown enverede por uma confessa passagem de testemunho, isso não impede que faça do seu incontestável carisma um ingrediente-chave de todo este caos, ao passo que vai de encontro à produção avulsa de SCARING THE HOES. É, aliás, um gesto repartido. Se JPEGMAFIA deve muito ao veterano, por ter aberto as portas, no início da década passada, para se ser mais inventivo dentro dos regimentos do hip-hop, então Danny Brown também sabe rever no seu par um digno sucessor do seu legado. Juntos, vão partilhando o palco e trocando versos com agrado ao longo das 14 faixas do disco. Burfict! –  o mais próximo que SCARING THE HOES fica a soar a uma victory lap conjunta, sempre em tons orquestrais – afirma-se como o expoente máximo desta química, enquanto Garbage Pale Kids transforma guitarras rugosas e duas publicidades nipónicas numa colagem de som à altura do frenetismo da dupla. Mesmo em Kingdom Hearts Key, onde cedem parte do comando a redveil (o único convidado do álbum), o hermetismo não cede. Contra tudo e contra todos, JPEGMAFIA e Danny Brown lá vão contorcendo a realidade ao seu próprio gosto. Ditam as suas quebras, o seu início, o seu repentino fim. Pelo meio, sacodem-se os sentidos, rebentam-se os corpos e, acima de tudo, assustam-se os que ficaram (ou não) de ouvidos pregados.

boygenius – the record

Género: Indie Rock
Data de Lançamento: 31/03/2023
Editora: Interscope

Amizade. É o que nos liga enquanto seres humanos, o que nos faz baixar a guarda, depositar confiança em alguém. É onde nos podemos sentir compreendidos, o que nos pode acompanhar nos sucessos e sarar nas quedas da vida. O que a amizade representa fica a cargo de cada um. Para as norte-americanas Julien Baker, Lucy Dacus e Phoebe Bridgers, é o sustento do seu supergrupo. Consegue ser tanto o segredo menos bem guardado das boygenius enquanto supergrupo como aquilo que as torna num raro caso de sucesso entre os demais. Aqui não existe um choque de egos, de intenções dispersas a colidirem a cada passo. O que transparece na música é uma sintonia clara como a água, não havendo fotografia mais lúcida desta faísca do que o autointitulado EP de estreia. Seis canções (todas elas impactantes), três vozes agora consideradas como geracionais e algo especial a nascer à nossa frente.

A passagem de quase cinco anos só veio cimentar este momento inicial como irrepetível. Bridgers conjugou a sua ascensão ao estrelato com o lançamento de Punisher (um dos depoimentos mais encantadores desta ainda verde década), Dacus mergulhou na sua própria “caixa de segredos” para fazer de Home Video uma ponte entre o passado e o presente, e Baker vai nivelando, álbum após álbum, a sua sonoridade pela brutalidade das suas autorreflexões. Na verdade, a ressurreição das boygenius nunca foi uma questão de “se”, mas sim de “quando”. O que the record vem provar, no entanto, é que não há elo inabalável que não consiga resistir ao tempo. Em cada recanto deste tão aguardado disco de estreia, encontram-se pedaços desse amor – nas suas histórias, nas memórias que motivaram estas doze faixas. Não é só uma forma de o cristalizar na música, mas sim o que motiva a sua existência. Por lá, coabita uma gratidão mútua e uma intimidade ímpar. Vemo-lo de diferentes ângulos e narradores ao longo de the record, mas isso nunca deixa de estar patente.

Speak to me, until your history’s no mystery to me”, cantam em uníssono logo a abrir as hostilidades, quase em forma de mantra, numa das várias odes a esta ideia de se ser compreendido. É, aliás, algo captado na perfeição mais à frente em True Blue. Aqui vemos Dacus no seu estado mais puro, com letras tão confessionais que parecem saídas de um diário e igualmente infalíveis no desafio de quebrar corações. We’re In Love volta a fazer deste ponto central, numa serenata a três novamente chefiada por Dacus. Em contrapartida, faixas como $20 e Anti-Curse são assinadas por Baker. Cabe-lhe a tarefa de forçar o seu indie rock porventura explosivo num disco que muitas vezes (e bem) navega por sonoridades mais aveludadas. Neste flanco, Bridgers é rainha, fazendo de suas Emily I’m Sorry, um sentido desabafo ao estilo de Punisher, e Revolution 0, onde volta a fazer do seu herói Elliott Smith um confidente espiritual.

E entre alusões ao seu nariz partido, à poesia com tesão de Leonard Cohen ou a antigas sessões fotográficas dos Nirvana, as boygenius também lá vão enaltecendo os ídolos do passado e fazendo troça de uma indústria que sempre procurou manter as mulheres apartadas da mesa de discussão. As três artistas sabem isso melhor do que ninguém – não fosse essa relação complicada com o passado e o presente da música rock uma das muitas experiências que as une. “Always an angel, never a god” serve de mote do momento de comunhão mais cristalino em todo o álbum, Not Strong Enough, revirando um tema-base de Sheryl Crow para jogar com este constante estado de autodepreciação, de nunca conseguir corresponder às expectativas, nem subir ao topo da hierarquia. Para além de fazer lembrar as familiares trocas de versos de outras eras (ainda que de forma menos literal do que as interpolações de Me & My Dog em Letter To An Old Poet), volta a remontar às origens das boygenius, uma banda que nasceu de vivências partilhadas e talentos em comum, de forma a conseguir transformar toda esta camaradagem em algo maior do que as suas partes. Será the record o seu expoente máximo, mesmo quando comparado com o brilhante EP de estreia? Só o tempo dirá. O que fica, por agora, é a sorte de ter Baker, Dacus e Bridgers a deixarem a sua marca na história do rock contemporâneo e a fazerem dela uma celebração da amizade que as uniu.

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