Panda Bear & Sonic Boom no M.Ou.Co: um “reset” psicadélico orquestrado por dois amigos
Noah Lennox e Peter Kember vieram estrear Reset, o seu primeiro disco enquanto dupla, num formato ao vivo, perante uma Sala M.Ou.Co bem preenchida e entusiástica. O segundo concerto de apresentação do álbum, que se seguiu a uma atuação no B.Leza em Lisboa no dia anterior, integrou o ciclo promovido pela SON Estrella Galicia no espaço da cidade do Porto.
Quais serão as bases de uma amizade? O que levará, afinal, duas pessoas a encontrarem elos de ligação entre si? No caso de Noah Lennox (amplamente conhecido como Panda Bear) e Peter Kember (que assina como Sonic Boom), a conexão está à vista e sente-se. Tudo começou com um simples agradecimento aos defuntos Spacemen 3 – onde Kember assumia o papel de líder – nas liner notes de Person Pitch, editado em 2007, e uma consequente troca de mensagens na era do MySpace. Foi o pontapé de saída para descobrirem conjuntamente a enorme química criativa que possuem. Tomboy (2011) e Panda Bear Meets the Grim Reaper (2015) contaram com o contributo de Kember e, posteriormente, Lennox retribuiu a ajuda em All Things Being Equal (2020), aquele que foi o primeiro álbum a solo de Sonic Boom em três décadas. Não foi, por isso, surpreendente quando decidiram estender a sintonia que os une a Reset, um álbum que une, finalmente, os dois artistas de uma forma mais vincada.
Também não foi por acaso que escolheram o nosso país para testar este novo material, não fosse Lisboa a casa de Lennox desde 2004 e Sintra a de Kember há seis anos. E se o Cosmos em Campolide teve o prazer de organizar a primeira sessão de escuta de Reset, foi a vez do B.Leza (Lisboa) e do M.Ou.Co (Porto) acolherem os concertos de apresentação deste mais recente trabalho de Panda Bear e Sonic Boom, nos dias 13 e 14 de outubro, respetivamente. A cidade invicta pode não ter o mesmo peso simbólico para o duo que a capital, mas nada impediu que fossem ontem recebidos em êxtase numa agradável noite de sexta-feira que, por momentos, se tornou hipnótica. As razões para ali estar eram múltiplas. Uns vinham pela paixão ao percurso a solo de Panda Bear e aos enigmáticos Animal Collective (grupo que Lennox integra e que ainda editou Time Skiffs no passado mês de fevereiro), outros pelo respeitável legado de Kember. E para além dos que tinham respondido afirmativamente à possibilidade de presenciar Reset num concerto especial, havia quem aproveitasse esta oportunidade pelo simples desejo da descoberta. Quaisquer que fossem as razões, a verdade é que a sala M.Ou.Co encheu-se de pessoas e de euforia.
Pouco depois das 21 horas, lá entraram os dois em palco, dirigindo-se para as suas secretárias, onde tinham dispostos uma panóplia de sintetizadores, samplers e equipamentos variados. Durante uma hora e meia, não se envolveram em grandes conversas e, honestamente, não precisaram de tal – a música falou por si. Falar deste concerto é falar, em grande medida, do trabalho que os trouxe ao Porto, sendo que Reset foi tocado na íntegra durante a primeira parte do espetáculo – e sem quaisquer alterações à sua sequenciação original. Aliás, foi uma reprodução fiel das versões de estúdio e são poucas as diferenças que se fizeram notar à medida que foram tocadas. Nesse campo, a voz de Panda Bear aparentou estar um pouco mais nítida ao vivo (com menos efeitos vocais, mas nunca deixando de lado o habitual reverb). Foram também adicionadas algumas transições entre as suas faixas que, diga-se, só reforçaram a natureza alucinatória das gravações originais. Reset tem como fio condutor um amor partilhado pelo pop e rock psicadélico que marcou as décadas de 50 e 60. Já era uma presença ativa nas suas anteriores aventuras artísticas e, com este disco, esse sentimento ainda se torna mais evidente. Com a dupla a avançar com temas como In My Body, o difícil era não reparar na influência de bandas como The Beach Boys neste novo álbum. Gettin’ to the Point ou Edge of the Edge, por exemplo, trouxeram essas sensibilidades pop e a forte presença de samples (uma constante na carreira de Panda Bear desde os dias de Person Pitch) para primeiro plano, adicionando porventura algumas palmas para motivar o público. Por outro lado, músicas como Go On ou Danger já são, por si só, algo transcendentais, com as voz de Lennox e os samples que o acompanham a prenderem-nos num feitiço sem fim. Quando anexadas à impressionante componente visual que dominou todo o concerto, então a imersão que Panda Bear e Sonic Boom provocam ganha toda uma nova camada.
Para o encore, fomos recordar dois temas de cada um dos artistas, anteriores a este projeto colaborativo. Kemper contou com as ocasionais passagens vocais de Lennox para interpretar Just a Little Piece Of Me e Things Like This (A Little Bit Deeper), ambas do seu último trabalho a solo. E depois do público pedir mais um tema, foi Panda Bear quem deslumbrou com um par de clássicos da sua discografia, para encerrar a noite com chave de ouro. Enquanto Tropic of Cancer, coproduzida precisamente por Sonic Boom, abriu espaço para um instrumental cósmico e para uma das performances mais encantadoras do set, Bros foi mesmo um regresso aos tempos gloriosos do já mencionado Person Pitch. Antes destas duas atuações em Lisboa e no Porto, já não tocava esta icónica faixa há cerca de 11 anos. Foi, desse modo, uma surpresa inesperada que deu mais valor a um concerto que nem teria precisado desta cereja no topo do bolo para arrancar uma derradeira ronda de aplausos efusivos e assobios em tons de validação.
Numa semana que ficou igualmente marcada pelo cancelamento da tour europeia dos Animal Collective, Panda Bear e Sonic Boom revelaram à revista TimeOut que, após estes dois concertos de apresentação de Reset, têm já planeada uma digressão com o mesmo propósito. As datas e os locais estão ainda por anunciar.
